domingo, 19 de abril de 2026

Transportes públicos em Braga: a mudança que tarda

Para termos consciência da necessidade de poupar ao máximo a utilização de transportes privados nas nossas deslocações, utilizando antes transportes públicos, não era precisa sequer esta crise da subida do preço dos combustíveis e do gás provocada pela guerra no Médio Oriente.

Não nos parece que tal esteja a acontecer e podemos dar um bom exemplo a partir da Universidade do Minho. Talvez as pessoas não saibam que no Campus de Gualtar há mais de 1.800 lugares de estacionamento e eles não são suficientes para acolher, em tempo de aulas, todos os automóveis que procuram os diversos parques nele existentes, ocupando mais de vinte hectares. 

Impressiona saber que muito mais de 2.000 automóveis (há utilizadores que entram 2 vezes por dia no Campus, particularmente na hora de almoço) estacionam ali todos os dias úteis. Para evitar esta situação haveria que encarar este problema de frente, articulando a actuação da universidade com a do município de Braga.

Dou o meu exemplo. Ultimamente tenho utilizado o comboio para me deslocar de Famalicão para Braga. Há comboios de hora em hora e é rápida a viagem (muito melhor ainda nos comboios rápidos). Pena é que não haja também autocarros rápidos de Famalicão para Braga (já houve).

Ao chegar à estação tenho duas possibilidades para chegar ao Campus de Gualtar: uma é o táxi (não utilizo a Uber), outra é o autocarro. Tenho experiências destas duas formas. O táxi é mais rápido (quando há táxis na estação), mas é caro e ainda não temos o hábito de juntar duas ou três pessoas para tornar a viagem mais em conta.

O autocarro é muito mais barato, mas é uma viagem incómoda a vários títulos. Na hora de ponta muitas pessoas têm de ir de pé. Por sua vez, o piso das ruas e avenidas é muito mau e isso sente-se bem na trepidação do autocarro e quando chega a Gualtar ele não entra no campus. Quem quer ir para uma das escolas ou outros edifícios tem de andar a pé (ao sol ou à chuva) durante quase tanto tempo como demorou a viagem desde a estação.

Isto demonstra que não há incentivo para utilizar transportes públicos e deveria haver. Quanto aos táxis deveria ser normal a utilização partilhada deste meio de transporte, começando as pessoas a procurar essa prática. Quanto aos autocarros, para além da urgente reparação dos pavimentos, eles deveriam entrar no campus, percorrendo-o ainda que para isso devesse haver um transbordo à entrada para autocarros mais pequenos. Esses autocarros deveriam ser utilizados preferentemente por pessoas com mais problemas de mobilidade por razões de idade ou outras.

O exemplo do Campus de Gualtar é apenas um e a circulação de pessoas dentro da cidade deveria ser igualmente incentivada, desde logo nos acessos a lugares de muita procura, adaptando-se o que acima dissemos às particularidades desses lugares. Depois, o acesso a parques de estacionamento privado deveria ser desincentivado através de preços superiores para quem não provasse que a utilização do transporte privado era necessária ou recomendada. Este problema deveria estar na agenda do município. Provavelmente está, mas julgo que não há a divulgação devida. Tentaremos procurar mais informação.

E quanto à universidade, não custaria muito colocar junto do campus, ao lado da publicidade comercial e político-partidária existente, painéis de incentivo à utilização de transportes públicos de forma criativa. A universidade deveria dar o exemplo.

Muito mais haveria a dizer sobre este tema e a ele tenciono voltar.

(Em Diário do Minho, 16/04/26 – o artigo pode ainda ser lido no blogue dedicado à universidade)

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A Constituição, a guerra e o Papa Leão XIV

Coube-me publicar este texto quinzenal no dia 2 de Abril de 2026, dia em que, há 50 anos, foi aprovada na Assembleia Constituinte a Lei Fundamental que ainda hoje vigora em Portugal, já com as importantes modificações que lhe foram introduzidas, nomeadamente  pelas revisões de 1982, 1989 e 1997. 

Seria natural, pois, que escrevesse sobre a Constituição, um documento que nos deve orgulhar por estabelecer o Estado de Direito democrático e com ele, logo no artigo 1.º, a luta pela "construção de uma sociedade livre, justa e solidária" e, no artigo 7.º, nº 1, a submissão de Portugal nas relações internacionais ao princípio da solução pacífica dos conflitos internacionais.

Mas como pode esquecer-se, neste dia, o momento que atravessamos com correntes políticas que se empenham em construir sociedades baseadas na competição, no individualismo e na submissão dos mais fracos ao poder dos mais fortes?

E como podem esquecer-se as muito perigosas guerras que, entre outros lugares, se travam na Europa (Ucrânia) e no Médio Oriente (Irão, Palestina e Líbano) impostas com toda a ferocidade por quem tem enorme poder militar?

Nestas circunstâncias, a nossa atenção dirige-se para o Papa Leão XIV que, no Domingo de Ramos (29/03/26), teve bem presente este mundo perigoso e disse com muita veemência na homilia:

"Irmãos, irmãs, este é o nosso Deus: Jesus, Rei da paz. Um Deus que rejeita a guerra; que ninguém pode usar para justificar a guerra; que não escuta, mas rejeita a oração de quem faz a guerra, dizendo: «Podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue»".

E ainda convidando a olharmos para Jesus, "que foi crucificado por nós, vemos os crucificados da humanidade" e, assim, mulheres e homens feridos, "sem esperança, doentes, sozinhos". Mas, "sobretudo, ouvimos o gemido de dor de todos aqueles que são oprimidos pela violência e de todas as vítimas da guerra. Da sua cruz, Cristo, Rei da paz, ainda clama: Deus é amor! Tende piedade! Deponde as armas, lembrai-vos de que sois irmãos!".

Os sanguinários senhores da guerra da Rússia, com a benção da Igreja Ortodoxa; os sanguinários senhores da guerra dos Estados Unidos da América, que estão sempre a invocar o nome de Deus e a fé cristã; e os sanguinários senhores da guerra de Israel, na Terra Santa, são a imagem viva de ofensas a Deus e aos homens. Têm as mãos cheias de sangue e não se importam. Vencer os outros, mesmo matando e ferindo inocentes, é o seu lema. Esquecem que não há razões que justifiquem uma guerra.

Estamos, ao observar tudo isto, a ouvir, nesta Semana Maior, Jesus a orar: "Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem".

(Em Diário do Minho, 02/04/26)