quinta-feira, 20 de março de 2025

Somos um povo de cabeça dura, D. José!

No passado sábado, dia 16 de março de 2025, D. José Cordeiro, que presidia em Braga  à missa de funeral do Dr. Miguel Macedo, largamente participada, enchendo a Igreja de São Lázaro, fez, durante  a bem adequada homília o elogio da política, lembrando a Laudato Sì do Papa Francisco. Um elogio rasgado, chegando a dizer que o “amor é político”  e levando-me a reler a Encíclica que tem como subtítulo “Sobre o Cuidado da Casa Comum” .

Só que não sei se D. José conhece bem - certamente conhece - o povo de Deus que lhe coube em Braga. O povo de Deus, de que faço parte, não tem em boa conta a política.  Considera que os políticos são todos iguais, que vão para a política,  ora porque não sabem fazer mais nada, ora para encher os bolsos. Vão para se servir, não para servir o povo.  A regra da política é a sujidade e o povo de Deus diz, mesmo quando surgem outros eleitos, que estes mudam, mas a porcaria (utilizam outra palavra mais vulgar) é a mesma. E a ladainha corrente contra os políticos ainda vai, nesta brevíssima descrição, a meio.

Julgo não estar a exagerar. Ainda admite, o povo,  que haja um ou outro que não pertença a estas categorias, mas consideram-no um ingénuo, alguém que não vai longe na política. E grande parte do povo de Deus, mesmo aquele que vai à missa todos os domingos, nem sequer vota. Votar para quê? São todos iguais, repete. E muito menos se dispõem a integrar uma lista de candidatos, recusando mesmo participar, quando são convidados, pois não querem misturar-se com essa “gente”.

E, no entanto, ao ler a Encíclica,  que vale a pena ler com toda a atenção,  não por ser do Papa Francisco, mas por nos apresentar  o Evangelho à luz dos nossos dias , deparamos no n.º 228 com este trecho: “O cuidado da natureza faz parte de um estilo de vida que implica capacidade de viver juntos e de comunhão. Jesus lembrou-nos que temos Deus como nosso Pai comum e que isso nos torna irmãos”, com o consequente dever que temos, de amor fraterno. E no n.º 231: “ O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as ações  que procuram construir um mundo melhor. O amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de caridade, que toca não só as relações entre os indivíduos, mas também “ as macrorelações como relacionamentos sociais, económicos, políticos”. Por isso, a Igreja propõe ao mundo o ideal de uma civilização do amor”.

Somos D. José, um povo de “cabeça dura” que se preocupa com ter poder, dinheiro e glória e, se para isso for necessário desqualificar ou  esmagar os  seus irmãos, não hesita. E ai de quem fale em aumentar a família com mais filhos, pois estorvam a sua  boa vida. E, muito menos com irmãos vindos de fora, de outras terras, de outras culturas, pois não são como nós. Quanto à “irmã Mãe Terra”, ela continua a clamar “contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou”(LS, n.º2)

Cumprir o Evangelho e com ele a doutrina social da Igreja bem adaptada ao nosso tempo em recentes documentos papais, e ainda por cima, a “Laudato Sì” seria uma revolução pacífica que mudaria tanto a vida do povo de Deus e obrigaria a mudar tanto o seu comportamento, que o melhor é deixar tudo assim. E continuar a ir à missa, cumprindo os preceitos…

Somos um “povo de cabeça dura”, D. José!

(DM-13-3-25)