No passado
sábado, dia 16 de março de 2025, D. José Cordeiro, que presidia em Braga à missa de funeral do Dr. Miguel Macedo,
largamente participada, enchendo a Igreja de São Lázaro, fez, durante a bem adequada homília o elogio da política,
lembrando a Laudato Sì do Papa Francisco. Um elogio rasgado, chegando a
dizer que o “amor é político” e
levando-me a reler a Encíclica que tem como subtítulo “Sobre o Cuidado da
Casa Comum” .
Só que não sei
se D. José conhece bem - certamente conhece - o povo de Deus que lhe coube em
Braga. O povo de Deus, de que faço parte, não tem em boa conta a política. Considera que os políticos são todos iguais,
que vão para a política, ora porque não
sabem fazer mais nada, ora para encher os bolsos. Vão para se servir, não para
servir o povo. A regra da política é a
sujidade e o povo de Deus diz, mesmo quando surgem outros eleitos, que estes mudam,
mas a porcaria (utilizam outra palavra mais vulgar) é a mesma. E a ladainha
corrente contra os políticos ainda vai, nesta brevíssima descrição, a meio.
Julgo não
estar a exagerar. Ainda admite, o povo, que haja um ou outro que não pertença a estas
categorias, mas consideram-no um ingénuo, alguém que não vai longe na política.
E grande parte do povo de Deus, mesmo aquele que vai à missa todos os domingos,
nem sequer vota. Votar para quê? São todos iguais, repete. E muito menos se
dispõem a integrar uma lista de candidatos, recusando mesmo participar, quando
são convidados, pois não querem misturar-se com essa “gente”.
E, no entanto,
ao ler a Encíclica, que vale a pena ler com
toda a atenção, não por ser do Papa
Francisco, mas por nos apresentar o
Evangelho à luz dos nossos dias , deparamos no n.º 228 com este trecho: “O
cuidado da natureza faz parte de um estilo de vida que implica capacidade de
viver juntos e de comunhão. Jesus lembrou-nos que temos Deus como nosso Pai
comum e que isso nos torna irmãos”, com o consequente dever que temos, de
amor fraterno. E no n.º 231: “ O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo,
é também civil e político, manifestando-se em todas as ações que procuram construir um mundo melhor. O
amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de
caridade, que toca não só as relações entre os indivíduos, mas também “ as
macrorelações como relacionamentos sociais, económicos, políticos”. Por isso, a
Igreja propõe ao mundo o ideal de uma civilização do amor”.
Somos D. José,
um povo de “cabeça dura” que se preocupa com ter poder, dinheiro e glória e, se
para isso for necessário desqualificar ou esmagar os seus irmãos, não hesita. E ai de quem fale em aumentar
a família com mais filhos, pois estorvam a sua boa vida. E, muito menos com irmãos vindos de
fora, de outras terras, de outras culturas, pois não são como nós. Quanto à “irmã
Mãe Terra”, ela continua a clamar “contra o mal que lhe provocamos por
causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou”(LS,
n.º2)
Cumprir o
Evangelho e com ele a doutrina social da Igreja bem adaptada ao nosso tempo em
recentes documentos papais, e ainda por cima, a “Laudato Sì” seria uma
revolução pacífica que mudaria tanto a vida do povo de Deus e obrigaria a mudar
tanto o seu comportamento, que o melhor é deixar tudo assim. E continuar a ir à
missa, cumprindo os preceitos…
Somos um “povo
de cabeça dura”, D. José!
(DM-13-3-25)